Fotografias
Cada uma numa moldura diferente, quase todas com o mesmo tamanho, aquele padrão, tanto por tanto, umas menorzinhas, recortes ou rasgos de fotos maiores, outras eram ampliações, umas acompanhavam no cantinho um 3x4 com cara de seriedade, e algumas, me disseram, tinham alguma coisa escrita no verso, uma data ou um comentário, ou mesmo um verso, mas estes só em poucas, especiais, e estavam todas enfileiradas nesta ordem sobre a estante.
À esquerda de todas vinha a primeira, quase totalmente desbotada, amarelada, com um vulto de uma mulher usando um vestido, sentada numa cadeira ao ar livre, com alguém no colo. Era ele. Não dava pra perceber nenhum traço de seu rosto, a foto toda apagada, não dava pra saber se estava de olho aberto ou fechado, se com a mão aberta ou fechada, se olhando pra cima ou pra frente, mas para mim parecia estar sorrindo. Não sorrindo para mim, na verdade, mas eu achava que ele estava, na foto, sorrindo.
A seguinte já teria sido tirada alguns anos depois, três ou quatro, e parece que com equipamento melhor, ou talvez tivesse sido guardada de forma mais apropriada, pois estava perfeitamente nítida, com excelente contraste de luminosidade. Em preto e branco. Junto a ele, que corria, ou tentava, havia um cachorro, que era para ele como um cavalo é para mim, e havia alguém a seu lado, agachado, com as mãos esperando para segurá-lo, caso fosse preciso, mas não podia ver quem era, não havia sido enquadrado na foto, ou até mesmo não era pra sair mas chegou na hora, não há como saber, e mais ao fundo se via, no meio do descampado, uma casinha pequena, com algumas outras crianças, mais velhas, no caminho, todas brincando ou se distraindo com algo. Reunião de família.
Um pouco atrás desta havia outra, num porta-retrato refinado, entalhado em madeira, vernizado, com fundo de feltro, pesado, até, e a foto meio de frente meio de perfil, os mesmos traços, inconfundíveis, que sempre o acompanharam, e aparecem, nítidos e em close, pela primeira vez nesta foto, talvez formatura de primário, menino com cara sisuda, e seria sempre essa cara, mesmo que não condizente com o comportamento, ou talvez primeira comunhão, acho que não, não sei.
Mas esta, ao lado da outra, sim, certamente era formatura, canudinho na mão, olhando pra quem, será, alguém falando pra sorrir um pouco, talvez. Do sorriso, discreto, só apareceu o começo, se é que sorriu, mas a ironia desmascarada estava ali, pra sempre, apesar do fundo pesado, cortinas, emblema da escola, à sua frente a mesa grande demais pra uma criança, desproporcional, mas ele nem se incomodou, saiu bonito, e tinha, atrás do fotógrafo, alguém que confirmou isso no momento exato do clique.
Estante grande, viu? Haja foto! Estas aqui, três, devem ter sido férias, ainda com a família, sempre, uma com as crianças, de todos os tamanhos, em volta do avô, mais velho impossível, cadeira de balanço, bengala, perna cruzada aparecendo a meia escura, cara sisuda, de família, como se a foto dependesse da cara fechada, as crianças, querendo rir, nota-se, com caras de seriedade também, exigência do avô, deve ser, os mais altos atrás, de pé, os mais novos, sentados ou de pé, todos na frente, um tentando entrar debaixo da cadeira, o cachorro querendo aparecer num canto, olhando, sério também, pra um dos primos, dos mais altos. Em outra quem aparece no meio é a avó, engraçado, o casal não aparece junto, e ela carrega um no colo, que na outra estava no colo de uma prima, bem magra, mais alta das moças, aqui ela até ri mais, aliás, como todos. Na terceira não se distingue os rostos muito bem, todos aparecem enquadrados com a casa maior, muitas janelas, todas abertas, varanda generosa na frente, alguns homens de pé ali, outros na escada, mas quase todos do lado de fora, como era costume enquanto havia sol.
Essa aqui é na cidade, pequena, parece, os carros, poucos, e cachorros pra todo lado. No primeiro plano está o armazém, e ele lá, paradão, sério, pensativo, encostado na porta, pé na cadeira, botina de couro, pensativo mesmo. Se fumasse estaria fumando. Na rua, que segue caminho até o alto e vira no fim, pouca gente, uma dona, subindo o morro, olha, se vira um pouco e olha, deve ter esperado até sair a foto, ou não, às vezes deu sorte, mas saiu com uma cara de curiosa, e um pouco cansada. No resto da foto só poeira.
Essa aqui sim! Certamente traz um verso escrito atrás, com dia, mês, ano e assinatura. Merece. A primeira foto com a companheira, toda uma vida os espera, a aparente timidez, na verdade, é a seriedade normal, mas os olhares não enganam, mesmo não sendo diretos, meio que pro infinito, revelam cumplicidade, é como se se devorassem com os olhos, sem se olhar, vai entender, e o sorriso dela vale a foto, que já tem valor demais, mas só o sorriso... tímido, sim, mas maravilhoso, franco, malicioso até, quase que falando, em palavras mesmo, da felicidade daquele momento.
Outra aqui, as cabeças encostadas, de lado, conversando só com o pensamento, sentados na praça, o braço dele no ombro dela, e a mão, acima do braço dela, mostrando, apontando algo, ele olhando firme, ela procurando, parecia firmar o olhar, atrás deles, gramado, outros casais, uns caminhando, outro parado, olhando alguma coisa ao pé duma árvore, talvez fossem se sentar, umas crianças, nunca deixam de aparecer, mesmo sem saber, talvez por estarem em todos os lugares ao mesmo tempo, e os dois, alheios a tudo isso, ainda olhando, procurando, seria o futuro?
Casamento. Não falta ninguém, nem na igreja, nem na festa, nem na foto, pais, tios e tias, primos e primas, crianças e mais crianças, padre, amigos, damas de honra, padrinhos e madrinhas, e, na festa, até cachorros. Seria o futuro procurado na foto anterior, ou ainda o começo dele? Mas, na verdade, quando o futuro começa a ser traçado? Foi quando se conheceram, quando resolveram se casar, antes disso, antes de se conhecerem, teria sido traçado na maternidade, ou nunca teria sido traçado, e se não existe futuro, será que ele começa a cada momento, a cada segundo, será que só existe no segundo antes de virar passado? Mas, o que se pode ter certeza, é que ali, naquele dia, com aquelas pessoas, registrado nas fotos que vejo, o futuro deles, se é que existe, foi traçado.
A foto seguinte, claro! Como eu não poderia imaginar, gravidez, risos, família, tias, comemorações, e mais crianças, mas ainda não as deles. Na foto, ela, seis ou sete meses já, parece, mais bonita que nunca, como toda grávida, radiante, só sorrisos, rodeada de paparicos, ele lá, maridão, cheio de cuidados, de pé atrás dela, e, ao lado dela, também sentada no sofá, a sogra, deve ser, avó em poucos meses, também toda amores, e a criançada, não que nunca tivesse visto grávidas, pois já as viram, e aos montes, nesse tempo era bem mais comum, aliás, nota-se, crianças e mais crianças, e a criançada, como dizia, cheia de curiosidades. Esparramado pelo sofá, e no colo das novas mamãe e vovó, enxoval mais que completo, e, nas mão da avó, claro, a próxima peça, quase pronta.
Foto seguinte, porta-retrato mais que enfeitado, o primogênito, parecida com a primeira foto, se aquela fosse legível, a mãezona, toda cheia de si, o filhão, grande mesmo, ela sentada, ele no colo, a mesma pose, a cadeira no quintal, o vestido, este menos pomposo que o primeiro, o bebê, olhos bem abertos, a mãe, olhos no bebê, e o pai, cuja presença é a diferença entre as fotos, olhos na mãe.
Na próxima, a casa nova, parecida com a outra, menor, um pouco, uma arvorezinha próxima da varanda, muitas janelas também, e de novo todas abertas, a mesma casa onde estou agora.
A seguinte mostra também a casa, ao fundo, mas o objeto da foto está aqui, primeiro plano, carrão, hein, papai no volante, braço na janela, mão no volante, cara de sério, pra variar, mas com indisfarçável alegria, vida mudando, crescendo, indo adiante.
A segunda gravidez. O primeiro olhando sem entender o barrigão, ela deitada no sofá, o menino de pé, ao lado dela, esquecido da máquina fotográfica, ou com vergonha, e ela falando, e apontando, pra ele olhar pra quem fez a foto, certamente o pai.
Viagem em família, o primeiro, um pouco maior, a segunda, de colo, pra um, areia para correr e brincar, pra outra, só sombra e água fresca. Praia não muito cheia, todo mundo caminhando, uns na água, roupas engraçadas, e, claro, cervejinha, tira-gosto, picolé.
- Se apressa aí que ele já tá quase pronto! - alguém disse comigo, ao que respondi.
- Tudo bem!
Mais aqui pra frente, outra, uma ampliação, moldura simples, bem bonita, família completa, depois de muito tempo. Algumas crianças novas a mais, outros, mais velhos, faltando, o lugar não aparece em nenhuma outra foto, ao que pude ver, mas as pessoas, mudadas, são, sem dúvida, as mesmas, mais velhas, um pouco, mas perceptivelmente mais velhas, de preocupações, vida diferente da de alguns anos, aqui, algumas fotos, antes. Todo mundo olhando o xis. Cachorro nenhum.
Nessa seqüência, repetição, formaturas, igrejas, festas, pessoas, casais, a vida dos filhos imita a dos pais.
Aqui, depois de certo tempo, ele de novo, sozinho, em close, quanta diferença, não envelheceu tanto, mas mudou, demais, não sei como explicar, nos olhos pode-se ver sua vida.
Nas outras fotos ao redor desta deve ter sido o mesmo dia, com os filhos, quatro, ali alguns netos, em todas a mesma feição, o mesmo olhar pras crianças, como quem diz, daqui a pouco será a vez de vocês, já está sendo. E parecem bastante recentes. Não são.
Viu? Aqui, de novo, ele com os netos. Os mesmos, pelo menos dez anos mais velhos. Todos na rua. A casa mudou, as crianças então..., até a cidade, só ele não, pelo menos na aparência, sisudo, sério, mas não aparenta preocupação, sentado, olhando pro infinito, parece que está olhando pras fotos da esquerda, as que foram tiradas antes, deve estar conferindo se tudo está indo bem, e parece que sim.
- Ele chegou! - me disseram.
E agora estou aqui, veja como ele entra, oitenta anos... parece a metade, quanta saúde, quanta vitalidade, depois de ver tal seqüência de fotos, toda sua vida, todos os presentes aparecem lá, seus nascimentos, crescimento, momentos ímpares, vidas inteiras assim. E ainda parece ser só o começo. E naquele momento, menos que um segundo, capturo tudo isso, e faço durar pra sempre, como durará, como duram todos os outros, e a vida segue:
- Pronto pra contar mais história?
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